João Pedro Vale
 
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Imagens Virtuosas, Virtuais e Virais

João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira têm desenvolvido um trabalho artístico de derisão das tipologias artísticas modernistas, ironizando sobre o sentido valorativo do objecto artístico e as suas muitas formas de inserção num regime pós-capitalista de consumo obsessivo.

Por outro lado, cedem de forma subversiva aos modelos da cultura pop numa hiperbolização e contaminação dos seus conteúdos, criando obras que devassam todos os cânones de classificação artística e a sua bem comportada ordem moral.

Esta exposição retoma, em moldes diversos, o projecto com o mesmo nome, realizado em Julho de 2013, no âmbito do Festival Walk and Talk na Ilha de São Miguel, Açores. Rumor consistiu na publicação no Facebook de Instagrams sobre aspectos daquela ilha açoriana, que os autores captaram em incursões várias, apenas com o objectivo de reperage e conhecimento dos lugares não turísticos.

O resultado foi um mapa visual virtual, deambulatório, aleatório, exploratório, por vezes íntimo, em que as muitas histórias dos lugares foram sendo acrescentadas às imagens, permanecendo apenas na experiência e memória dos autores. O álbum Rumor permaneceu na plataforma virtual do Facebook como mais um capítulo duma história em devir, a da fotografia vernacular na era das redes sociais, repositório futurista duma memória que nunca mais se construirá da mesma forma.

Ao transformar este projecto virtual em exposição objectual, os autores actuam uma vez mais no sentido do despojamento artístico de muitas das suas falácias sistémicas.

Será bom lembrar que a fotografia é o produto duma sociedade tecnológica e massificada que, no dealbar do século XX, transformaria as relações sociais e a produção artística. Os movimentos artísticos do século XX fizeram, cada um a seu modo, a assimilação da fotografia na cultura visual do nosso tempo, muito embora o seu carácter reprodutivo tenha continuado a ser contrariado nos debates conservadores em torno da aura artística e original da fotografia.

A aplicação digital Instagram, que os autores utilizaram como plataforma de divulgação do álbum Rumor, evoca a técnica Polaroid, inventada por Edwin Land em 1947, o primeiro processo fotográfico instantâneo de utilização comercial e doméstica, cujo sucesso seria determinante por várias décadas, até ao surgimento do digital e a condenação da empresa ao fracasso financeiro em 2008.

As fotografias Polaroid tiveram um sucesso que não foi apenas comercial e doméstico, as suas possibilidades estéticas e técnicas seduziram fotógrafos de nomeada e foram determinantes no imagético da arte pop, sendo Andy Warhol o exemplo mais evidente.

O revivalismo tecnológico invadiu as redes sociais a partir de 2010, fazendo da aplicação Instagram um novo modelo de partilha de imagens de enorme sucesso. Grande parte dele estará certamente associado à evocação dum modelo analógico da fotografia vernacular, colocando o conceito de revivalismo no cerne duma cultura hiper tecnológica.

Nesta nova abordagem do álbum Rumor, o revivalismo alia-se à reprodutibilidade, já que os autores mimetizam o processo Polaroid, desta feita impresso em papel, a partir dum processo digital de manipulação, elevando a arte do poder multiplicador da fotografia ao seu mais intenso limite. O jogo da apropriação é um dos elementos fulcrais da história recente da fotografia, reiterando a sua capacidade de mutabilidade e adaptação às circunstâncias tecnológicas e sociais.

Este registo visual da ilha consagra o poder vernacular da fotografia e o carácter fetichista, em particular, do processo Polaroid. A revelação imediata das imagens tornou a Polaroid particularmente eficaz no âmbito do universo privado e íntimo, não sendo por isso extemporâneo que Land afirmasse que a sua câmara “ejaculava” uma imagem. Neste sentido, as imagens deste lugar são expoente duma deambulação que não pede urgência em registar, antes se perde languidamente num voyeurismo da viagem. Entre paisagens de sonho, momentos snapshot e desvelamentos íntimos, o mapa de São Miguel é uma rede de vislumbres que ora perduram enquanto memória colectiva dos lugares, ora deambulam na vacuidade veloz das redes sociais.

Rumor coloca-nos, nos seus processos e conteúdos, no limite de muitas expectativas sobre o carácter solene da fotografia. É também uma afirmação espontânea e libertária do processo de criação por si só, e a irónica reflexão sobre a volubilidade do fenómeno artístico num mundo onde o virtuosismo se tornou virtual e viral.


Emília Tavares