João Pedro Vale
 
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José Marmeleira
Público, 20/10/2011

Diz-me que língua o teu corpo fala, dir-te-ei quem és

Artista incansável na exploração dos não ditos da cultura e história portuguesas, João Pedro Vale assina em “English As She Is Spoke”, na Fundação PLMJ, uma das suas melhores exposições. A partir do estigma dos repatriados açorianos, para pensar a forma como a língua determina a identidade.

Há dez anos que João Pedro Vale (Lisboa, 1976) traz à esfera pública da arte rituais mitos e personagens da cultura portuguesa. Para os descontextualizar, interrogar, criticar e (carinhosamente) ferir. Quase nada escapa à sua atenção curiosa: o fado e Amália, as touradas, as festas populares, a relação com o Brasil, os fantasmas dos Descobrimentos. A (sua) condição local é pois indissociável da (sua) obra. Ou seja, é um artista português que trabalha com a história que modelou a sua (e a nossa) identidade.

E "English As She Is Spoke", exposição no espaço da Fundação PLMJ que lida com os efeitos da emigração sobre os homens, traduz o momento mais recente dessa pesquisa, com um filme, uma escultura e desenhos a giz sobre ardósia.

O projecto resultou de um convite da Galeria Fonseca Macedo, de Ponta Delgada (onde foi apresentado pela primeira vez no ano passado), mas começou a ganhar forma em 2008. "Estava nos Estados Unidos a preparar ´Moby Dick' [exposição em torno da obra homónima de Herman Melville, apresentada na Galeria Filomena Soares em 2009], quando deparei com a questão dos repatriados das comunidades portuguesas. Pensei que era uma óptima oportunidade para trabalhar sobre o tema. Por outro lado, foi também durante a investigação que encontrei o livro ‘English As She Is Spoke'".

O drama dos filhos de emigrantes portugueses no Canada e nos EUA que, depois de cumprirem penas superiores a um ano de prisão, são obrigados a regressar ao país de origem, atravessa a exposição. Educados numa cultura que não reencontram no exílio definitivo, desligados da nova comunidade, caem num limbo. Só sabem falar inglês, língua que os identifica como criminosos. É aqui que entra o misterioso livro. João Pedro esclarece. "É um guia de conversação português - inglês do século. XIX, mas o autor não sabia falar inglês. E por isso, o resultado é um conjunto de situações cómicas, como as traduções directas do ‘google'". Organizado em situações tipo, veio a estruturar o filme de 46 minutos (realizado com Nuno Alexandre Ferreira), que narra a vida de John, açoriano, americano, repatriado sem pátria.

Filmadas num ambiente clínico, frio (com tonalidades quase monocromáticas), as situações envolvem sempre dois protagonistas, John e alguém que representa a autoridade: o pai, um padre, um polícia, um agente dos serviços de fronteiras. Os diálogos destabilizam a compreensão imediata da narrativa, pois são traduções das próprias falas: "Fizemos tudo como se fosse um episódio do ‘Follow Me to Britain' [série educativa da BBC que nas décadas de 1970 e 1980 introduziu meio mundo à língua inglesa]. Como se estivéssemos a ensinar os espectadores a lidar com as diferentes situações com as quais este repatriado teria de lidar, numa constante interacção com diferentes figuras". O efeito raramente é cómico. Os diálogos sugerem monólogos, momentos introspectivos, interrompidos apenas pela violência verbal ou física.


A linguagem e o corpo

A sequência dos acontecimentos não é linear e a ambiguidade abunda. O polícia americano veste uma farda que o identifica como português. O agente dos serviços de fronteiras transforma-se num torcionário. E um interrogatório confunde-se com um concurso de jovens talentos. A presença dos auriculares e dos microfones acentua a dimensão teatral do filme: "Essa foi sempre a intenção. As pequenas peças de teatro do ‘Follow Me To Britain' foram o ponto de partida e encontram-se referências ao teatro de revista que no final conduz ao momento musical". A estadia nos EUA facultou, também, outras influências. "Descobrimos uma série de pequenas peças de teatro feitas por adolescentes das comunidades luso-americanas. Permitiam-lhes praticar o português e improvisar momentos teatrais que reproduzissem o seu quotidiano".

Tal como em "Moby Dick", alguns dos elementos dos cenários, ganham vida material, enquanto obras autónomas, exposta no espaço da Fundação PLMJ. Assim é com a estrutura de ferro (que no filme se vai transformando em ringue de basquetebol, vedação e prisão) e com os desenhos feios com giz (de um quintal, do exterior de um bar, da Broadway) que funcionam como fundos das cenas, telões de teatro.

Se o fio condutor de "English As She Is Spoke" é a identidade ou a identificação através da linguagem, o corpo é o seu subtexto. É ele que se confronta com a inquirição, o desdém, a violência dos outros, que se mostra no palco (veja-se a cena final, onde John, envolto num xaile negro, canta, "I´m Like A Bird", de Nelly Furtado) como suporte de uma identidade social, cultural e, principalmente, sexual. Isto não significa que estejamos perante um projecto, à semelhança de "Moby Dick", dominado pelo desejo e a sexualidade (homossexual) de uma comunidade. Embora o que não faltem sejam momentos de tensão sexual e homoerotismo, a realidade tratada em "English As She Spoke", é a da complexidade dos papéis que um indivíduo desempenha (filho, cantor, preso, toxicodependente, repatriado).

Mas a ocasião não podia ser a melhor para recordar com João Pedro Vale a censura de que foi alvo a sua exposição "P-Town", pela Companhia de Seguros Tranquilidade, em Agosto. "English As She Spoke" não tem referências tão directas à homossexualidade. Teria nas mesmas circunstâncias passada despercebida ao lápis azul? "Já nada me surpreende. Receei a reacção das pessoas nos Açores. Achei que podia ser lido como uma afronta, mas aconteceu o oposto. As reacções foram mais de agradecimento do que de censura. Acho muitas vezes demagógico e paternalista o receio de mostrar determinados projectos, já que na maioria dos casos a discussão gerada será sempre muito interessante. Penso que se perdeu essa oportunidade no Espaço da Tranquilidade". Já "P-Twon" ainda vai tempo: inaugura na Galeria Boavista, Lisboa, a 8 de Novembro, em plena democracia portuguesa.