João Pedro Vale
 
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Quem mais chora menos

João Pedro Vale (1976) apresenta na exposição “Quem não chora não mama” um conjunto de três trabalhos que surgem em torno de um projecto comum acerca do folclore da Nazaré.

Já em 2002, na peça Barco Negro, o artista fazia referência às tradições nazarenas na construção de um barco com uma configuração típica das embarcações de pesca locais. Partindo de um barco naufragado, o artista “remendava-o” com toda a espécie de parafernália, pães, pneus, moedas, trajes típicos, roupas velhas, flores, cordas, redes, peixes, velas, santas, cruzando, deste modo, dimensões da vida marítima, religiosa e mística, como se perante a iminência da catástrofe todo o valor simbólico dos objectos culturais fosse suplantado pelo seu valor meramente utilitário, ou seja, de remendo que pudesse permitir ao barco, se não a salvação pela manutenção à tona d’água, pelo menos, o adiamento do fim.

Convidado a dar seguimento ao projecto “Obras na Fachada”, o artista apresenta, na dita fachada da Casa d’Os Dias da Água, a peça Uma Fenda na Muralha, uma instalação sonora que permite ao transeunte que passe na rua D. Estefânia em frente à Casa, ouvir um som que se assemelha ao de pessoas a chorar/ gritar. No entanto, trata-se de uma gravação sonora de um concerto com um grupo de mulheres da Nazaré que mimetizam a tradição das carpideiras nazarenas, tradição mediterrânica associada à mulher que assume posteriormente formas diversas consoante o contexto onde é praticado. Sendo a Nazaré uma terra de pescadores, era comum que grupos de mulheres passassem horas a fio na praia, especialmente em dias de mar bravo, à espera dos seus filhos e maridos, num misto de queixume, choro e rezas aos santos protectores para que os trouxessem a salvo para terra.

O carpir, assim era designado o som por elas produzido, assumia proporções avassaladoras em situações de naufrágio, provocado pela impotência do nada poder fazer, pelo terror da visão dos barcos a afundar e pela dor da perca, já que, num mar bravo e sem protecção, era comum este tipo de tragédias.

O título da peça, Uma Fenda na Muralha, é a expressão que designa o súbito amansar da sétima onda que permite aos barcos passar a rebentação e chegar à praia, sendo igualmente uma referência ao livro com o mesmo nome do escritor Alves Redol, um dos expoentes máximos do neo-realismo literário português de meados do século XX, onde numa mistura de preocupações sociais sobre a vida dos pescadores da Nazaré se vislumbra o carácter pitoresco e turístico onde a vida desses homens fica ofuscada. Para Alves Redol o tom era de denúncia das condições de vida do povo, com preocupações de retrato social quase no sentido antropológico do termo, onde a ficção era um reflexo que se queria fidedigno da realidade.

Para Ala-Arriba! o artista parte de uma outra visão sobre a vida dos pescadores, neste caso o filme com o mesmo nome que Leitão de Barros realizou em 1942, e com o qual arrecadou um prémio do Festival de Veneza do mesmo ano, tendo esse facto contribuído muito para a imagem do país no estrangeiro. Apesar do carácter realista que o realizador procurou ao retratar a vida dos pescadores da Póvoa do Varzim, usando para esse efeito os próprios habitantes locais como actores do filme, o tom é assumidamente de exaltação do estoicismo e da coragem das gentes do mar. Esta visão ingénua da vida de miséria material e humana dos pescadores, foi de imediato apropriada pelo Estado Novo de Salazar, pela mão de António Ferro de quem o realizador era amigo, como epopeia heróica de um povo que nada mais tinha do que o árduo trabalho diário pela sobrevivência.

Para o seu Ala-Arriba! João Pedro Vale filmou um grupo de pessoas, elementos do rancho folclórico “Velha Guarda” da Nazaré enquanto estes desempenhavam o seu papel enquanto agentes conhecedores e disseminadores da cultura e tradições locais, com danças, cantigas e alguns “quadros” da vida quotidiana. Foi-lhes pedido, inclusivé, que recriassem uma cena de carpideiras na praia perante um naufrágio no mar, cena fundamental e que celebrizou o filme de Leitão de Barros. O resultado, ironia óbvia a um registo de pendor etnológico, apresenta essas cenas, agora executadas e filmadas no local de ensaios do rancho folclórico. A falta de referente espacial, o próprio tom jocoso com que toda a acção se desenrola, nomeadamente na recriação da cena trágica do naufrágio, aliados à falta de som do vídeo e à semelhança da cor com o “Ala-Arriba!” de Leitão de Barros, dão ao trabalho um carácter absurdo, de coisa fora do tempo, uma representação possível de outras representações que o tempo e a vontade da ideologia dominante tornaram objectivas como realidade.

O mesmo princípio de absurda ironia está presente em 7 Calças, um retrato parcial do autor vestido com sete calças de padrões axadrezados, sobrepostas, numa clara alusão, não totalmente desprovida de carga sexual, às sete saias da indumentária feminina da Nazaré, o traje supostamente tradicional. E digo “supostamente” baseando-me no facto de, apesar de todos o considerarem como tal, este traje ser uma invenção folclórica dos anos 30 do século XX, posteriormente difundida pelo comércio local na década de 50, com todas as atribuições bíblicas, míticas e mágicas atribuídas ao número sete.

Em “Quem não chora, não mama”, para além da significação objectiva do próprio nome da exposição, ironia contextual à representação que habitualmente se faz das relações entre arte e poder, João Pedro Vale procede a uma desconstrução ambivalente, dos factos do folclore nacional para questionar a contribuição dos mesmos para a construção de uma identidade nacional e da forma como estes fenómenos são historicamente apropriados. Ontem como hoje.

Nuno Alexandre Ferreira



Leitão de Barros, "Ala-Arriba!", 1942